risocordeluz
risocordeluz: O prazer da criação pela palavra
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
O fantasma no armário
Falava-se no outro dia, a propósito de terapias, terapeutas e feridas
internas, que também aí "em casa de ferreiro espeto de pau".
E o meu espanto: então não é o médico o que melhor sabe tratar-se? Não é o psicólogo o que melhor se saber analisar?
E a resposta, após uns minutos, foi: devia sê-lo, mas como não vivemos num mundo (pelo menos aparentemente) perfeito, não é assim necessariamente. Mas é necessário, sim, sabê-lo. Porque o pior cego é aquele que não quer ver.
Ainda a propósito disto, um dos presentes reclamava o direito do terapeuta a ter o seu "fantasma no armário". É mais que um direito, é uma fatalidade. Mas o sentimento de "ter o direito" tem o mérito de o libertar da culpa, esse mortal veneno.
Se é verdade que ninguém cura ninguém, que é o próprio que tem em si o dom e os instrumentos da cura, sendo o terapeuta (não apenas, porque é importante que ele exista) mas aquele que apoia (se o outro o permitir), também é verdade que esse terapeuta, ou facilitador, o curador em geral (com o equívoco que a palavra encerra) não pode estar alienado do seu fantasma. Isto é, ele pode ter o seu fantasminha (ou fantasmão) e tem-no. Grave é se não o reconhecer. É indispensável que ele conheça e reconheça, em cada momento, o fantasma, em cada vez que ele ponha o pé fora do armário. Que conheça os seus contornos e obsessões.
Um curador que se apresente sem mácula, dizia-se, um pretenso guru, é um ser muito perigoso. Porque não reconhece a sombra. Ora a sombra é o indispensável material de trabalho. Não há outro. Para tal existe. É para a cura, que existe a ferida. É para a luz que existe a sombra. Assim, o curador pode sim, ter o seu fantasma de estimação ou de ódio. Até poderá ser-lhe muito útil. Para o também indispensável exercício da humildade. Se não for reconhecido, esse sombrio fantasma pode saltar de forma assustadora, fazer vacilar o curador e pôr em fuga o paciente. Mas sim, arejá-lo, deixá-lo respirar, não o asfixiar, porque os fantasmas ganham força quando os asfixiamos, é preciso pendurá-los no arame ao sol. O ar e a luz são verdadeiramente letais aos fantasmas. E assim, um dia o fantasma há-de morrer. Não esquecer, porém o agradecimento a esse companheiro de jornada, que por alguma razão o criámos e aprisionámos.
in:
http://www.unicepe.com/cronicas.html
E o meu espanto: então não é o médico o que melhor sabe tratar-se? Não é o psicólogo o que melhor se saber analisar?
E a resposta, após uns minutos, foi: devia sê-lo, mas como não vivemos num mundo (pelo menos aparentemente) perfeito, não é assim necessariamente. Mas é necessário, sim, sabê-lo. Porque o pior cego é aquele que não quer ver.
Ainda a propósito disto, um dos presentes reclamava o direito do terapeuta a ter o seu "fantasma no armário". É mais que um direito, é uma fatalidade. Mas o sentimento de "ter o direito" tem o mérito de o libertar da culpa, esse mortal veneno.
Se é verdade que ninguém cura ninguém, que é o próprio que tem em si o dom e os instrumentos da cura, sendo o terapeuta (não apenas, porque é importante que ele exista) mas aquele que apoia (se o outro o permitir), também é verdade que esse terapeuta, ou facilitador, o curador em geral (com o equívoco que a palavra encerra) não pode estar alienado do seu fantasma. Isto é, ele pode ter o seu fantasminha (ou fantasmão) e tem-no. Grave é se não o reconhecer. É indispensável que ele conheça e reconheça, em cada momento, o fantasma, em cada vez que ele ponha o pé fora do armário. Que conheça os seus contornos e obsessões.
Um curador que se apresente sem mácula, dizia-se, um pretenso guru, é um ser muito perigoso. Porque não reconhece a sombra. Ora a sombra é o indispensável material de trabalho. Não há outro. Para tal existe. É para a cura, que existe a ferida. É para a luz que existe a sombra. Assim, o curador pode sim, ter o seu fantasma de estimação ou de ódio. Até poderá ser-lhe muito útil. Para o também indispensável exercício da humildade. Se não for reconhecido, esse sombrio fantasma pode saltar de forma assustadora, fazer vacilar o curador e pôr em fuga o paciente. Mas sim, arejá-lo, deixá-lo respirar, não o asfixiar, porque os fantasmas ganham força quando os asfixiamos, é preciso pendurá-los no arame ao sol. O ar e a luz são verdadeiramente letais aos fantasmas. E assim, um dia o fantasma há-de morrer. Não esquecer, porém o agradecimento a esse companheiro de jornada, que por alguma razão o criámos e aprisionámos.
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terça-feira, 31 de janeiro de 2012
ESCUSAMOS DE FICAR DESCANSADOS
Publicado em: http://www.unicepe.com/cronicas.html
Eu até não sou nacionalista, isto é, gosto do meu país, mas não ando por aí de bandeira em punho, no entanto, repito, não posso deixar de me interrogar que poema teria ele feito perante uma bandeira com castelos em forma de pagode?
Mas voltemos à tal entrada da loja. Que vejo eu à porta, no lugar nobre? Um pano vermelho, que poderia ser vermelho chinês ou o vermelho da bandeira nacional (pois, refiro-me, mais uma vez, ou ainda, à nossa) ou o vermelho Natal, com um menino Jesus desses que agora aí penduram nas janelas por esta época a marcar as casas cristãs como já tinham feito os judeus no Egito com sangue de cordeiro.
Neste caso, o vermelho não é de sangue de cordeiro, o símbolo não é judeu, mas cristão, embora Jesus não fosse cristão, mas judeu, cristãos só vieram depois dele, por causa dele, e a porta da casa também não era de judeus, mas de chineses. Mas não se admirem se na Páscoa se começarem a vender nestas lojas umas pinturas para pôr nas portas, a imitar sangue de cordeiro. É só dar a ideia...
Mas voltemos ao Jesus à porta da loja chinesa. Grande salada de símbolos, crenças, tradições e... economia.
O que se compreende.
Também não andamos a perguntar aos donos das lojas de bric-à-brac religioso em Fátima se são católicos. Nem têm de ser.
Mas não deixa de me fazer pensar, este símbolo do cristianismo em lugar nobre numa loja chinesa. Lá dentro, semiocultos, os budas velam. E isso é o menos. Há quem diga que Cristo e Buda são reencarnações do mesmo ser. Para quem lhe fizer sentido este tipo de crença.
O mais estranho é que me pareceu ver a fugir, a esconder-se por entre as louças, um buda vestido de Mao... mas o que é inquietante é que, lembrando bem, não era o tradicional fato maoista, bem visto, bem visto, acho que era mesmo um fato de executivo, a farda do capitalismo internacional mais violento e cruel, o que não se importa de se disfarçar do que for preciso, desde que consiga os seus fins. Até, se necessário for, de cordeiro.
Apetece dizer, gritar cantando, como na canção heroica de Lopes Graça: "Acordai, homens que dormis!"
Pois escusamos. Percebi isso hoje ao passar junto de uma loja de
produtos chineses. Esclareço que não tenho nada contra os chineses e
até tenho conhecido pessoas encantadoras, nomeadamente na minha área
profissional.
Mas foi com a visão da entrada de uma destas lojas que se deu o clique.
Já me tinha acontecido durante o mundial de futebol ficar mais ou menos em choque com as bandeiras nacionais (quero dizer, as portugueses, os tempos já pedem que se esclareça a que nos referimos quando falamos em nacional) com uns castelos em forma de pagodes. Se os tivesse visto, que teria escrito Pessoa no seu poema primeiro da Mensagem, "O dos Castelos"?
Mas foi com a visão da entrada de uma destas lojas que se deu o clique.
Já me tinha acontecido durante o mundial de futebol ficar mais ou menos em choque com as bandeiras nacionais (quero dizer, as portugueses, os tempos já pedem que se esclareça a que nos referimos quando falamos em nacional) com uns castelos em forma de pagodes. Se os tivesse visto, que teria escrito Pessoa no seu poema primeiro da Mensagem, "O dos Castelos"?
- PRIMEIRO / O DOS CASTELOS
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
Eu até não sou nacionalista, isto é, gosto do meu país, mas não ando por aí de bandeira em punho, no entanto, repito, não posso deixar de me interrogar que poema teria ele feito perante uma bandeira com castelos em forma de pagode?
Mas voltemos à tal entrada da loja. Que vejo eu à porta, no lugar nobre? Um pano vermelho, que poderia ser vermelho chinês ou o vermelho da bandeira nacional (pois, refiro-me, mais uma vez, ou ainda, à nossa) ou o vermelho Natal, com um menino Jesus desses que agora aí penduram nas janelas por esta época a marcar as casas cristãs como já tinham feito os judeus no Egito com sangue de cordeiro.
Neste caso, o vermelho não é de sangue de cordeiro, o símbolo não é judeu, mas cristão, embora Jesus não fosse cristão, mas judeu, cristãos só vieram depois dele, por causa dele, e a porta da casa também não era de judeus, mas de chineses. Mas não se admirem se na Páscoa se começarem a vender nestas lojas umas pinturas para pôr nas portas, a imitar sangue de cordeiro. É só dar a ideia...
Mas voltemos ao Jesus à porta da loja chinesa. Grande salada de símbolos, crenças, tradições e... economia.
O que se compreende.
Também não andamos a perguntar aos donos das lojas de bric-à-brac religioso em Fátima se são católicos. Nem têm de ser.
Mas não deixa de me fazer pensar, este símbolo do cristianismo em lugar nobre numa loja chinesa. Lá dentro, semiocultos, os budas velam. E isso é o menos. Há quem diga que Cristo e Buda são reencarnações do mesmo ser. Para quem lhe fizer sentido este tipo de crença.
O mais estranho é que me pareceu ver a fugir, a esconder-se por entre as louças, um buda vestido de Mao... mas o que é inquietante é que, lembrando bem, não era o tradicional fato maoista, bem visto, bem visto, acho que era mesmo um fato de executivo, a farda do capitalismo internacional mais violento e cruel, o que não se importa de se disfarçar do que for preciso, desde que consiga os seus fins. Até, se necessário for, de cordeiro.

Apetece dizer, gritar cantando, como na canção heroica de Lopes Graça: "Acordai, homens que dormis!"
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domingo, 29 de janeiro de 2012
Vermelho, no Teatro Aberto
O pintor e o seu pajem.
Pode um drama ser trágico?
O pajem é uma tela em branco. Chega imaculado e engravatado. Mergulha (não tem forma de fugir) ou é mergulhado, de imediato, na loucura conceptual do pintor. Ele, que também é pintor. Um clandestino pintor. Porque nem sempre os génios permitem vida à sua volta. Ao princípio é tudo limpo e lindo. Depois, o sangue da infância começa a inundar pensamentos, sentimentos, vida e telas. O vermelho invade o espaço e as roupas ensanguentam-se e também as telas. E também os corpos. Vermelho sangue, vermelho vivo, vermelho morte, vermelho tudo.
A história é o quotidiano de um pintor com seus dramas criativos, filosóficos, literários. Mas a mente é apolineamente trágica.
E o drama, tal como na peça Frei Luís de Sousa, redunda em tragédia. Em Frei Luís de Sousa, porque Garrett assim o quis: limpar com o sangue contido e modelar da tragédia o esgotamento mortífero causado pelos excessos do drama romântico.
Aqui, em Vermelho, porque a tragédia já lá estava. É muito fácil criar as condições para a tragédia. Basta desafiar os deuses. Basta ser humano.
Respeitar o pai e matá-lo.
Coisa que o pequeno pintor demorou a conseguir fazer, perante o monumental pai que adotara. Como matar um pai depois do assassinato do primeiro? Como matar um pai que não se pode ter? Mas também se pode adotar um pai. Ainda que este seja um relutante pai, como um filho na fase da adolescência.
É complexa a relação entre estes dois seres, pai e filho, génio e pintor, senhor e pajem. E no entanto… um recria o pai nas telas (ou o seu assassino, o que é o mesmo: assassino ponte para o pai), o outro cria filhos com as mesmas. Apropria-se das crias e em nome do amor, da necessidade de compaixão por elas e da necessidade de as proteger, retém-nas, e quando não as retém, resgata-as.
No palco, Rothko, com aquilo que normalmente é associado a um pintor: telas, tintas, pincéis.
Este, está sobre o palco e ignora-nos. Volta-se para a tela, o palco dentro do palco. Por vezes, a tela parece ser a orquestra e ele o maestro com seus braços estáticos antes da primeira nota.
Telas, tintas, pincéis. Pensamentos, meditação, intuição. Intensamente.
“Cada pincelada é uma tragédia”. Ele, Apolo. As pinturas, filhos, pessoas.
“É só uma tela!”, indigna-se o “pajem”.
E os outros? Menos que telas, para este pintor. Apenas as telas existem e ocupam o lugar que mais ninguém merece.
Um dia, ele ou o ego ou algo ou alguém nele, quase permitiu que as telas fossem parar a um restaurante de luxo. Por muito dinheiro. Vendeu os filhos. Foi demasiado. Apenas neste momento se mostrou humano e vulnerável. Para lá de toda a conceptualização. A arte pode ser, também, uma imensa alienação. Ou um caminho. Como tudo.
O espetáculo Vermelho foi uma agradável surpresa. Saí de lá ligeiramente amuada, como paradoxalmente saio sempre que gosto muito. Como uma criança a quem tiraram o brinquedo com que ela queria continuar a brincar. Não cabe em mim tanta emoção numa única vez. Excelência na representação, nos textos, nos cenários, na encenação, nas luzes, no som (bela seleção musical). Voltarei.
Pode um drama ser trágico?
O pajem é uma tela em branco. Chega imaculado e engravatado. Mergulha (não tem forma de fugir) ou é mergulhado, de imediato, na loucura conceptual do pintor. Ele, que também é pintor. Um clandestino pintor. Porque nem sempre os génios permitem vida à sua volta. Ao princípio é tudo limpo e lindo. Depois, o sangue da infância começa a inundar pensamentos, sentimentos, vida e telas. O vermelho invade o espaço e as roupas ensanguentam-se e também as telas. E também os corpos. Vermelho sangue, vermelho vivo, vermelho morte, vermelho tudo.
A história é o quotidiano de um pintor com seus dramas criativos, filosóficos, literários. Mas a mente é apolineamente trágica.
E o drama, tal como na peça Frei Luís de Sousa, redunda em tragédia. Em Frei Luís de Sousa, porque Garrett assim o quis: limpar com o sangue contido e modelar da tragédia o esgotamento mortífero causado pelos excessos do drama romântico.
Aqui, em Vermelho, porque a tragédia já lá estava. É muito fácil criar as condições para a tragédia. Basta desafiar os deuses. Basta ser humano.
Respeitar o pai e matá-lo.
Coisa que o pequeno pintor demorou a conseguir fazer, perante o monumental pai que adotara. Como matar um pai depois do assassinato do primeiro? Como matar um pai que não se pode ter? Mas também se pode adotar um pai. Ainda que este seja um relutante pai, como um filho na fase da adolescência.
É complexa a relação entre estes dois seres, pai e filho, génio e pintor, senhor e pajem. E no entanto… um recria o pai nas telas (ou o seu assassino, o que é o mesmo: assassino ponte para o pai), o outro cria filhos com as mesmas. Apropria-se das crias e em nome do amor, da necessidade de compaixão por elas e da necessidade de as proteger, retém-nas, e quando não as retém, resgata-as.
No palco, Rothko, com aquilo que normalmente é associado a um pintor: telas, tintas, pincéis.
Este, está sobre o palco e ignora-nos. Volta-se para a tela, o palco dentro do palco. Por vezes, a tela parece ser a orquestra e ele o maestro com seus braços estáticos antes da primeira nota.
Telas, tintas, pincéis. Pensamentos, meditação, intuição. Intensamente.
“Cada pincelada é uma tragédia”. Ele, Apolo. As pinturas, filhos, pessoas.
“É só uma tela!”, indigna-se o “pajem”.
E os outros? Menos que telas, para este pintor. Apenas as telas existem e ocupam o lugar que mais ninguém merece.
Um dia, ele ou o ego ou algo ou alguém nele, quase permitiu que as telas fossem parar a um restaurante de luxo. Por muito dinheiro. Vendeu os filhos. Foi demasiado. Apenas neste momento se mostrou humano e vulnerável. Para lá de toda a conceptualização. A arte pode ser, também, uma imensa alienação. Ou um caminho. Como tudo.
O espetáculo Vermelho foi uma agradável surpresa. Saí de lá ligeiramente amuada, como paradoxalmente saio sempre que gosto muito. Como uma criança a quem tiraram o brinquedo com que ela queria continuar a brincar. Não cabe em mim tanta emoção numa única vez. Excelência na representação, nos textos, nos cenários, na encenação, nas luzes, no som (bela seleção musical). Voltarei.
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sábado, 28 de janeiro de 2012
Édipo, pelo Chapitô: Pode uma tragédia ser cómica?
Falamos da vida? Falamos do teatro. Falamos da vida.
Eu pensava que já tinha visto o melhor que o grupo de teatro do Chapitô conseguia fazer. Pensava também que já tinha visto o máximo com o mínimo: uns panos, um banco e está feito um cenário.
Pensava, até, que já me tinham feito sorrir da forma mais paradoxal possível, com a dor dos outros que é sempre a nossa. Porque, como disse alguém, “os outros são só os outros”, uma espécie de tela ou espelho para nos vermos, no entanto, os dramas e as comédias são os nossos.
Mas não. Muito enganada andava eu.
Porque neste espetáculo, nem uma cadeira, nem um trapinho, para além das simples peças usadas para cobrir o corpo, que nunca são despidas, não haja a tentação de as transformar em adereços. Estão nos corpos, quase tão inamovíveis como a pele… parece ser. Uns sapatos, umas calças e umas t-shirts. E três atores dentro delas. Isto é, vestidos. Como nós. Digo, muito menos que nós, que a noite estava fria e guardámos ao colo o que trazíamos de fora: casacos, cachecóis, luvas, abafos.
Perante um palco nu.
Eles entraram como visitantes e estranharam nem ao menos uma cadeira. Foram comentando o facto ao longo da peça, estes atores habituados a quase nada. “Estranharam” nem uma cadeira.
Isso não os impediu de, com os corpos, fazerem montanhas, cães, camas, balcões de taberna, vento, cavalos, armas, carruagens, tudo. Até a esfinge lá apareceu, parecida com a verdadeira esfinge como nunca vi outra. Ou seria a outra, a que eu pensava verdadeira, que antecipou a semelhança com esta? Esta ausência de tudo (… mas não escreve Pessoa: “é em nós que é tudo”?...), também não os impediu de pegarem na talvez mais célebre das tragédias gregas e transformá-la no teatro mais cómico que alguma vez suspeitei ser possível.
Como espetadora das peças do Grupo de Teatro do Chapitô costumo sorrir, mesmo quando outros riem a bandeiras despregadas, e olho-os de soslaio, por vezes com incómodo e censura, àqueles chatos que não veem para além do riso. Tenho-me mostrado assim (acho que ontem me curei): chata e intolerante. Não esperava que fosse preciso uma tragédia para me pôr a rir como eles. Os outros. Como eu sei rir. Com as tragédias. Sim, que isto de matar o pai e casar com a mãe e o contrário, que é o mesmo, é uma coisa conhecida, o Freud bem o percebeu, ao designar como Édipo um dos mais importantes complexos que definiu.
Depois disto, duvido que consigam voltar a surpreender-me com esta intensidade. No entanto… aguardo. E, pelo sim pelo não, calo-me. Para não cair no complexo dos políticos (enfim… de alguns, para não ser politicamente incorreta), aquele que Freud não chegou a definir como o complexo... de Pinóquio.
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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
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Despertar do Zêzere:
Despertar do Zêzere:
Um simples Natal
E aí vem, novamente, o solstício. Este ano, mais pobre. Mas não
nasceu assim o Natal? Sobre palhas.
Contudo, mais pobre não significa com menos luz.
Por isso eu, que todos os anos me comovo com o Advento,
tanto como quando era pequena, e este ano me confronto com uma capital sem
luzes de Natal, regozijei quando, no início de dezembro, Ferreira do Zêzere me
acolheu com luz. À margem da crise. Apesar dela.
Luz não é luxo. Luxo é aquilo que não se vê, mas que se
sabe. A luz é uma manifestação honesta de alegria e acolhimento do pequenino
Sol que agora, mais uma vez, nasce. Que renasce.
A iluminação não tem de ser opulenta e cara, pode ser
simples e modesta.
Não é com gestos de hipocrisia financeira, de faz de conta
que se poupa, que a crise desaparece.
Também não serei eu a apresentar aqui receitas para sair
dela. Mas sei que não será com falta de luz. Pelo contrário. Iluminemo-nos. Por
dentro e por fora. E renasçamos.
DEPOIS DO NATAL
Com o solstício (ou o Natal, para quem prefira a simbólica
cristã) acabámos de entrar no longo e terrível corredor do Inverno: escuro,
triste, desafiador. Uma verdadeira passagem, no sentido mais iniciático do
termo. No momento em que os dias aumentam a margem solar, iniciamos nós um
caminho solitário e escuro. É o inverno. Para quem queira aceitar o difícil
privilégio.
Por isso nos são tão gratas as luzes do natal, que podem
abranger as velas e os mais variados, modernos e sofisticados dispositivos com
modalidades de piscar para todos os gostos. Com música (eu diria mais ruídos)
ou silenciosos. É a despedida da luz.
O que se segue é ainda o frio, é ainda a chuva, por vezes a
neve, a humidade entranhando-se nos poros e nos ossos, o vento assobiando no
telhado, ou na chaminé, para quem tem o privilégio de ainda a ter, às vezes a
tristeza entranhando-se nos sonhos e nos dias, a solidão das noites longas, a
saudade da luz e do calor. E no entanto e paradoxalmente, o sol iniciou já a
sua caminhada de abertura para o apogeu. Quando mais sentimos a sua ausência é
quando ele começa a vir ao nosso encontro.
Há quem não suporte a provação e se comporte durante este
tempo como se vivesse no Rio de Janeiro num carnaval permanente, fingindo que
não está frio, que não está escuro, que não está… triste.
É pena. Todas as oportunidades devem ser aproveitadas, mesmo
as aparentemente menos atrativas. Porque são oportunidades. Ainda que não
pareçam. Só é possível renascer numa explosão de cor e perfume como é a
Primavera, após o apodrecimento da semente dentro da terra. Também dentro de nós
algo deverá aproveitar a oportunidade de apodrecer durante o longo, escuro e
húmido corredor do inverno, para que
nasça algo de novo.
Renascer está no nosso caminho, é a substância da nossa
natureza. Mas é preciso aprender a internarmo-nos na noite escura, ficar nas
trevas à escuta dos sons e do silêncio, quando não da música da chuva ou do
vento, ouvir passos solitários a desaparecer na calçada deserta, enrolarmo-nos
sobre nós mesmos como um animal em hibernação…
Um dia, com o degelo das terras, súbita mas docemente, um
pássaro começa a cantar, um rebento mostra-se no ramo nu e nos nossos corações,
tanto tempo silenciados, uma canção irrompe.
Até lá, antes da bela música, escutemos quem somos. No
escuro. Sabendo que é no meio do maior breu que a claridade mais resplandece.
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domingo, 8 de janeiro de 2012
Sentimento de voar
Encosto-me à trajetória do sol
coisa simples
sigo Régulus
qualquer criança se sabe
íntima das quatro estrelas reais da Pérsia
e à boleia dos Reis Magos
ou seguindo-os
percorro o zodíaco sideral
conheço-o
como
a palma da minha mão
não
conheço eu outra coisa.
Para cá deixo
todos os pais
todas as mães
e os servos,
formas de amor que conheci
é solitário este caminho, mesmo com camelo e rei e estrela.
Viajo da Terra para o Ar
ao cheiro da canela.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
"Lorcas", Coral Públia Hortênsia
Federico García Lorca, oil painting by Josep Miquel Serrano Serra, 1935. Photo credit: Archivo Mas, Barcelona
Há já muitos anos que conheci e acompanhei por dentro, o Coral Públia Hortênsia. Depois, a música da minha vida transportou-me para outras músicas, e apaixonei-me pela música das palavras. Mas continuei a a acompanhar o coro. Por fora. Assim, há uns anos pude assistir a um momento alto e de viragem, com o projeto das Ensaladas, um espetáculo encenado, onde os cantores se completaram como atores.
Agora, o coro prossegue esta via com o projeto Lorcas, a partir de textos e música de Frederico Garcia Lorca em versão igualmente encenada.
Fui assistir ontem à antestreia no espaço Escola de Mulheres e ainda bem que alterei tudo o que tinha programado fazer e fui.
Sei que na perspetiva do coro e do maestro esta não é ainda a versão madura e finalizada, mas para mim, que não vi o sonho, apenas o resultado, é um belo espetáculo dramático e musical. Com os cantores convictos no seu papel de atores e renovados na sua versão de cantores.
Como no caso das Ensaladas, a encenação é de José Carlos Garcia do teatro do Chapitô, a direção musical, como sempre, do maestro e compositor Paulo Brandão, e as guitarras estão presentes com o Zyryab Quartet, que acompanhara já uma versão estritamente coral do Romancero Gitano em concerto no Museu dos Coches.
Também a belíssima voz da meio-soprano convidada, Inês Madeira, no papel de "La Argentinita", uma cantora do universo de Lorca.
O ambiente, entre o realista e o surrealista, com um desfile de personagens desse mesmo universo entre o poético, o trágico e o irónico, a contribuição de objetos de cena de notável expressividade e simplicidade, como tábuas que ora são guitarras ora são outra coisa qualquer, como bancos para sentar, como José Carlos Garcia já nos habituou num outro lugar, e ainda os origamis e truques de ilusionismo, .
Por vezes, as imagens são estáticas a lembrar uma pintura de Dali, de cores muito fortes e vivas a contrastar com tons mais neutros e de terra.
Daniel Schvetz compôs para os poemas de Lorca e o coro representou e cantou-os assim como ao Romancero Gitano, tudo perfumado pelos aromas da Andaluzia.
A avaliar por este estético, encantatório, saboroso e perfumado aperitivo, recomendo atenção ao anúncio dos espetáculos a acontecer em 2012.
(A versão ainda não encenada do Romancero, em Maio de 2008:
http://www.facebook.com/video/video.php?v=114157478613693)
(A versão ainda não encenada do Romancero, em Maio de 2008:
http://www.facebook.com/video/video.php?v=114157478613693)
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Publia Hortensia
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
MA - A Dança dos Pirilampos, Pedro Morais
A minha experiência da obra de Pedro Morais passa pelas obras Locus Solus III – Muro Oco de Cal Pintada e Água Corrente e Dokusan III – Lâmina e Anamorfose em Parede Caiada, Museu de Serralves, Porto (2006), Focus Fatus, Avenida 211, Lisboa e (2008) e MU – Lua em Chão de Terra Batida, CAM – Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa (2009).
Em todos, a contenção e o rigor, mas também os sentidos, que não só o do olhar.
Recordo-me de ter escrito sobre todos estes trabalhos, mas sobre algo me falta ainda escrever: o excelente trabalho que desenvolveu ao longo de anos como curador da Galeria Lino António na Escola Secundária Artística António Arroio onde também foi professor e antes fora aluno.
Antes disso, falarei, se souber, de uma obra atualmente exposta na Galeria Chiado 8, que tem por título Ma-A Dança dos Pirilampos.
Pirilampos é uma coisa de que gosto e de dança também.
Aí encontrei o improvável: pirilampos em pleno Chiado depois de ter percorrido um estrito e estreito e à primeira vista claustrofóbico corredor de madeira e a cheirar a ela, tanto, que se não conhecesse a autenticidade do trabalho de Pedro Morais suspeitaria da presença de um desses libertadores de aromas que agora se usam para atrair as pessoas. Mas não. Trata-se de madeira mesmo madeira cheirando deliciosamente a madeira e acompanhando o meu percurso de um lado ao outro do túnel, por baixo, nos lados e por cima. Acho; recordo agora que não olhei para cima.
Eu encetara a viagem com a recomendação, feita pela funcionária, de que, chegada ao outro lado, não devia nunca por nunca abandonar o estrado de madeira. Assim, aí me mantive, obediente, aparentemente chegada ao fim e sem saber o que fazer mais. Se voltar para trás pelo mesmo corredor, se pedir ajuda. Mas não. Porque em frente, uma fresta mostrou-me, escassamente, mas mostrou, a dança que ali me levara: a dos pirilampos. Geométrica dança, intermitente, como é a luminosa dança dos piriplampos. Espreitar pela fresta e querer agarrar com o olhar a luz esquiva, equivale à tentativa de olhar algumas esquivas memórias de criança. Não sei se é essa a metáfora, provavelmente não é, mas foi-o para mim, naquele momento.
A propósito desta exposição escrevi, num diário literário que faço com e para os meus alunos:
"...transportou-me até à minha infância através de um inseto e do seu nome,
palavra que na altura adorava e hoje também. A palavra e o inseto.
Diz o dicionário que o pirilampo é um besouro de uma família especial, pois é capaz de produzir luminescência. São bioluminescentes e o seu nome deriva do grego pyris que significa fogo, mais lampis, que significa luz.
São uma espécie de dois em um, ou então uma
redundância, dependendo do nosso ponto de vista. Se tivermos em conta
que fogo é luz, sendo que o contrário já não é obrigatoriamente verdade.
Mas a "viagem" não terminou aqui, porque me
transportou até ao conto "O Lampejo" de Italo Calvino que li aos meus
alunos no início do ano e onde se conta a história de um homem que um
dia, subitamente, viu toda a realidade sem máscara, com o absurdo que
normalmente esconde, mas quando quis comunicá-lo às pessoas à sua
volta, o "lampejo" ou o olhar iluminado desapareceu e apenas restou a
nostalgia de um momento de lucidez e o desejo de que um dia voltasse.
Este "acender" do olhar especial foi tão
fugaz como o é o brilho dos pirilampos que na minha infância gostava de
observar e que atualmente cada vez menos encontro. Recordo-me de os ter
visto há cerca de três anos, no Gerês, mas vão sendo raros os
pirilampos nos meus dias. Felizmente, o mesmo não me acontece com os
lampejos, cada vez mais frequentes. Graças a São Pirilampo."
Assim terminei a página do diário, mas não este texto. Porque depois de os meus olhos se concentrarem na fresta em busca da luz e de já não ser suportável para eles o que a alma pedia: olhar mais, saí por onde tinha de sair e disse à funcionária que ia repetir a experiência.
Assim, numa tarde solar entre o Natal e o Ano Novo percorri uma segunda vez o estreito corredor e espreitei também uma vez mais o meu iluminado passado. E fiquei grata.
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terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Elas
Aconchego-as com minha echarpe para seu conforto e pela primeira vez inteiramente compreendo a intensa seriedade com que as crianças brincam.
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
ORIENTE E ACIDENTE
Foi um lapso, confesso, que deu o título a este texto. Confesso também
que são acidentes que estão na origem de grande parte da minha escrita,
independentemente do sentido que cada um quiser atribuir a "acidente".
De facto, eu queria escrever "Oriente e ocidente" e é isso que vou tentar fazer, mas veremos onde me leva o meu lapso, ou, diria Freud, o meu "ato falhado".
Veio-me a ideia a partir de um vídeo:
http://www.youtube.com/watch?v=pG9RFyR7ad4
com uma síntese do resultado de um primeiro convite feito a Alexandra Battaglia para a direção artística de um Showcase de 6 grupos de Dança de comunidades culturais diferentes existentes em Macau, inserido no XXII Festival de artes de Macau 2011, embora a ideia já me tivesse ocorrido anteriormente em diferentes contextos e em conversa com variadas pessoas.
Face à invasão de culturas milenares como a Índia e a China por exemplo, pelo melhor e principalmente pelo pior do ocidente, uma importação sem filtro de uma "descultura" uniforme, massificada, consumista e, no pior sentido, niveladora, e pensando no fenómeno de penetração, no ocidente, de algumas personalidades do oriente, mestres de diferentes escolas de meditação, artes marciais, técnicas de saúde tradicionais e filosofias orientais, sobretudo a partir de finais do século XIX e muito no século XX, fenómeno este de tipo significativamente diferente do anteriormente referido fenómeno inverso, porque qualificado, porque não massificado, porque não se limitando a transportar matéria desalmada, mas trazendo sobretudo, consigo, uma alma, e observando o que se passa hoje em Países como Macau, China e Japão, com os adolescentes e não só, numa correria aos ícones da "cultura" ocidental mais recente e mais superficial, penso:
Meditando sobre o quase culto que a tradição oriental nas suas várias vertentes (saúde, arte, religião, filosofia de vida...) assumiu no ocidente, e tendo já em tempos olhado para isto como uma descaracterização da nossa própria cultura, vejo agora, face à observação do que se passa aqui e lá, que não há comparação possível. Aqui deu-se uma importação seletiva e qualificada, lá, uma invasão. Consentida, claro, mas são coisas diferentes.
Talvez tenhamos tido de aprender uma forma diferente de pensar e até de respirar, para, através do amor por estas antigas culturas, virmos a ser nós, paradoxalmente, os que de alguma forma poderão preservar o que, admito com exagero meu, um dia poderá estar em risco: algumas das culturas mais antigas do planeta. No fundo, as nossas origens mais recuadas. O nosso mais profundo ser. Não esqueçamos que mesmo a nossa esquecida e maltratada avó Grécia nos traz, através da sua cultura que também está nos nossos genes, o som, os saberes e os sabores do oriente. De um tempo já quase mítico. A recuperar. Quando nos decidirmos a libertar-nos deste acidente em que se tornou o nobre (no sentido psicológico) ocidente. E assim voltamos ao título. E ao "lapso".
De facto, eu queria escrever "Oriente e ocidente" e é isso que vou tentar fazer, mas veremos onde me leva o meu lapso, ou, diria Freud, o meu "ato falhado".
Veio-me a ideia a partir de um vídeo:
http://www.youtube.com/watch?v=pG9RFyR7ad4
com uma síntese do resultado de um primeiro convite feito a Alexandra Battaglia para a direção artística de um Showcase de 6 grupos de Dança de comunidades culturais diferentes existentes em Macau, inserido no XXII Festival de artes de Macau 2011, embora a ideia já me tivesse ocorrido anteriormente em diferentes contextos e em conversa com variadas pessoas.
Face à invasão de culturas milenares como a Índia e a China por exemplo, pelo melhor e principalmente pelo pior do ocidente, uma importação sem filtro de uma "descultura" uniforme, massificada, consumista e, no pior sentido, niveladora, e pensando no fenómeno de penetração, no ocidente, de algumas personalidades do oriente, mestres de diferentes escolas de meditação, artes marciais, técnicas de saúde tradicionais e filosofias orientais, sobretudo a partir de finais do século XIX e muito no século XX, fenómeno este de tipo significativamente diferente do anteriormente referido fenómeno inverso, porque qualificado, porque não massificado, porque não se limitando a transportar matéria desalmada, mas trazendo sobretudo, consigo, uma alma, e observando o que se passa hoje em Países como Macau, China e Japão, com os adolescentes e não só, numa correria aos ícones da "cultura" ocidental mais recente e mais superficial, penso:
Meditando sobre o quase culto que a tradição oriental nas suas várias vertentes (saúde, arte, religião, filosofia de vida...) assumiu no ocidente, e tendo já em tempos olhado para isto como uma descaracterização da nossa própria cultura, vejo agora, face à observação do que se passa aqui e lá, que não há comparação possível. Aqui deu-se uma importação seletiva e qualificada, lá, uma invasão. Consentida, claro, mas são coisas diferentes.
Talvez tenhamos tido de aprender uma forma diferente de pensar e até de respirar, para, através do amor por estas antigas culturas, virmos a ser nós, paradoxalmente, os que de alguma forma poderão preservar o que, admito com exagero meu, um dia poderá estar em risco: algumas das culturas mais antigas do planeta. No fundo, as nossas origens mais recuadas. O nosso mais profundo ser. Não esqueçamos que mesmo a nossa esquecida e maltratada avó Grécia nos traz, através da sua cultura que também está nos nossos genes, o som, os saberes e os sabores do oriente. De um tempo já quase mítico. A recuperar. Quando nos decidirmos a libertar-nos deste acidente em que se tornou o nobre (no sentido psicológico) ocidente. E assim voltamos ao título. E ao "lapso".
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Ao sol, ao solstício, ao pássaro de fogo, ao menino vulnerável e real, a todos nós que somos vós: um reconfortante Natal, porque as crises passam, mas o renascer é eterno como a luz.
Ignorando as circunstâncias e os ruídos, e lembrando, celebrando o nascimento desse grande pássaro de luz que uns representam nas palhas e outros no céu, os meus votos de um belo e risonho renascer.
Para todos, a flor da minha mãe.
domingo, 18 de dezembro de 2011
Mais papista que o Papa
Freud. "O Papa" da psicanálise.
Isto, a propósito de dois filmes, o olhar de dois realizadores sobre uma figura histórica e uma figura de ficção: Freud e um Papa relutante: Um método perigoso de David Cronenberg e Habemus Papam de Nanni Moretti. Dois filmes com estéticas e, parece-me, intenções completamente distintas e no entanto com tantos pontos em comum: a ambivalência de conceitos como a saúde e a doença, o poder e a humildade, o curador e o que é curado, o verdadeiro amor e os interesses. O filme de Moretti sobre um hipotético Papa que teria entrado em pânico ao ser escolhido para sucessor à Cadeira de S. Pedro e a quem é psicologicamente diagnosticado um "défice de acolhimento" na mais remota infância. O tema do diagnóstico psicológico, do próprio método, mas sobretudo, no segundo, o humaníssimo terno e irónico olhar de Moretti, as personagens mostradas como são: para além da máscaras e do estatuto social, crianças com medo.
O filme de Cronenberg mostra Freud como há-se ser mostrado para a eternidade: inteligente, decisivo, arrogante, inflexível. O Papa do divã.
Diz-lhe Yung, o que erra, o que se mostra frágil e vulnerável, o que estabelece compromissos, o que se vende por um prato de lentilhas, mas também o que arrisca, o que ousa introduzir na psicanálise temas tabu da área da espiritualidade, afirma-lhe que ele, Freud, olha os amigos como se fossem doentes, para cada um tem uma neurose, e no entanto se ele pudesse ver-se...
Mais tarde dir-lhe-á também que por vezes temos de praticar atos imperdoáveis para continuarmos a viver.
No meio de ambos, uma fascinante mulher e fabulosa atriz, a que vem a tornar-se a melhor entre os médicos, porque conheceu a doença.
E a contagiante felicidade da música de Mercedes Sosa:
http://www.youtube.com/watch?v=Za75SkduQX8
A ouvir e ouvir e ouvir... e cantar e dançar e dançar e dançar!
Isto, a propósito de dois filmes, o olhar de dois realizadores sobre uma figura histórica e uma figura de ficção: Freud e um Papa relutante: Um método perigoso de David Cronenberg e Habemus Papam de Nanni Moretti. Dois filmes com estéticas e, parece-me, intenções completamente distintas e no entanto com tantos pontos em comum: a ambivalência de conceitos como a saúde e a doença, o poder e a humildade, o curador e o que é curado, o verdadeiro amor e os interesses. O filme de Moretti sobre um hipotético Papa que teria entrado em pânico ao ser escolhido para sucessor à Cadeira de S. Pedro e a quem é psicologicamente diagnosticado um "défice de acolhimento" na mais remota infância. O tema do diagnóstico psicológico, do próprio método, mas sobretudo, no segundo, o humaníssimo terno e irónico olhar de Moretti, as personagens mostradas como são: para além da máscaras e do estatuto social, crianças com medo.
O filme de Cronenberg mostra Freud como há-se ser mostrado para a eternidade: inteligente, decisivo, arrogante, inflexível. O Papa do divã.
Diz-lhe Yung, o que erra, o que se mostra frágil e vulnerável, o que estabelece compromissos, o que se vende por um prato de lentilhas, mas também o que arrisca, o que ousa introduzir na psicanálise temas tabu da área da espiritualidade, afirma-lhe que ele, Freud, olha os amigos como se fossem doentes, para cada um tem uma neurose, e no entanto se ele pudesse ver-se...
Mais tarde dir-lhe-á também que por vezes temos de praticar atos imperdoáveis para continuarmos a viver.
No meio de ambos, uma fascinante mulher e fabulosa atriz, a que vem a tornar-se a melhor entre os médicos, porque conheceu a doença.
E a contagiante felicidade da música de Mercedes Sosa:
http://www.youtube.com/watch?v=Za75SkduQX8
A ouvir e ouvir e ouvir... e cantar e dançar e dançar e dançar!
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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Chão natal
No coração de Lisboa em dia temperado de dezembro saio ao terraço interior de onde vejo às vezes as gaivotas, e o sabor da tangerina na boca transporta-me num quarto de segundo ao pátio andaluz em que se transformou a tijoleira do chão.
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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Horácio e a Senhora
- "Logo, que eu sirva como uma pedra de amolar, que, privada de cortar por si mesma, tem o poder de tornar agudo o ferro."
- Não, não é fala da Virgem, apesar de ser hoje o dia de Nossa Senhora da Conceição e de traduzir, de alguma forma, o que poderia ser o pensamento da deusa que se apresenta sobre uns chifres ou crescente.
- O texto é do poeta Horácio, esse que foi filho de escravo, guerreiro e mais tarde poeta protegido pelo imperador. Também hoje é o seu dia. Assim, deusa e poeta se unem num pensamento.
Ele, enquanto poeta, ela também enquanto criadora. E assim resplandece a mulher, ser de criação e arte. À imagem e semelhança dos deuses. No primeiro plano da criação.
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terça-feira, 6 de dezembro de 2011
O último europeu
São personalidades como esta e outras que já partiram, que quase me levam a aceitar o princípio da clonagem.
http://www.presseurop.eu/pt/content/article/1106151-juergen-habermas-esta-em-jogo-democracia
e:
http://www.presseurop.eu/pt/content/article/1243221-juergen-habermas-o-ultimo-europeu
A Europa está confusa.
Os dirigentes já não sabem como anunciar mais medidas de austeridade:
Se com uma não assumida vergonha, como o ministro atual da saúde, se com assumida compaixão, aflição e, diria, talvez não consciente sentimento de culpa, como a ministra do trabalho italiana, se com desastradas manobras de diversão, como o 1º ministro italiano ao renunciar ao seu salário (é bonito, mas não é por aí...) e quase os outros todos, se sem uma coisa nem outra, como o resto. Que nos resta? Acreditar na evolução. Isto é lento e às vezes parece que damos passos atrás.
A solução?
Ou fazemos clones de Habermas (e de poucos mais, modelos que se vejam há poucos, os que há, que são muitos, não andam muito visíveis e é pena...) ou aprendemos com os nobres seres como ele que já passaram por este mundo, ou... teremos de estar muito conscientes e não nos deixarmos enganar. Porque os momentos de crise ou caos, como os que estamos a viver, são grávidos de oportunidades e de... perigos e se isto pega de começar a nomear governos como nas monarquias antigas e nas ditaduras modernas, a coisa pode complicar-se. O mal é habituarem-se ao silêncio e conivência do povo. Germinada em medo.
É preciso estar consciente, muito consciente, bloquear todas as casas dos segredos, todos os media sensacionalistas (sobram poucos, mas ainda há) e viver de olhos bem abertos. Porque, ao contrário da peça de Karl Valentin, não se pode exterminá-los. Porque eles são parte de nós e o gérmen do medo e a tentação das soluções fáceis também está em nós. Somos nós que alimentamos isso. Não somos vítimas, somos muito mais responsáveis do que queremos acreditar. Por muito que nos custe.
http://www.presseurop.eu/pt/content/article/1106151-juergen-habermas-esta-em-jogo-democracia
e:
http://www.presseurop.eu/pt/content/article/1243221-juergen-habermas-o-ultimo-europeu
A Europa está confusa.
Os dirigentes já não sabem como anunciar mais medidas de austeridade:
Se com uma não assumida vergonha, como o ministro atual da saúde, se com assumida compaixão, aflição e, diria, talvez não consciente sentimento de culpa, como a ministra do trabalho italiana, se com desastradas manobras de diversão, como o 1º ministro italiano ao renunciar ao seu salário (é bonito, mas não é por aí...) e quase os outros todos, se sem uma coisa nem outra, como o resto. Que nos resta? Acreditar na evolução. Isto é lento e às vezes parece que damos passos atrás.
A solução?
Ou fazemos clones de Habermas (e de poucos mais, modelos que se vejam há poucos, os que há, que são muitos, não andam muito visíveis e é pena...) ou aprendemos com os nobres seres como ele que já passaram por este mundo, ou... teremos de estar muito conscientes e não nos deixarmos enganar. Porque os momentos de crise ou caos, como os que estamos a viver, são grávidos de oportunidades e de... perigos e se isto pega de começar a nomear governos como nas monarquias antigas e nas ditaduras modernas, a coisa pode complicar-se. O mal é habituarem-se ao silêncio e conivência do povo. Germinada em medo.
É preciso estar consciente, muito consciente, bloquear todas as casas dos segredos, todos os media sensacionalistas (sobram poucos, mas ainda há) e viver de olhos bem abertos. Porque, ao contrário da peça de Karl Valentin, não se pode exterminá-los. Porque eles são parte de nós e o gérmen do medo e a tentação das soluções fáceis também está em nós. Somos nós que alimentamos isso. Não somos vítimas, somos muito mais responsáveis do que queremos acreditar. Por muito que nos custe.
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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
O primeiro dos últimos, ou quando os primeiros são só os primeiros... dos últimos
Hoje é último primeiro de dezembro. Nunca fui monárquica. Não por alguma razão especial. Pela mesma razão pela qual não sou republicana. Porque não me faz muito sentido uma coisa nem outra. São desvios de sentido. O sentido está noutro lado, onde não querem que estejamos. Mas isso, sendo a principal questão, é outro assunto.
Podemos fingir que acreditamos. Como quando éramos pequeninos. Sempre fingimos que acreditávamos, mesmo quando os adultos nos mentiam, quer em relação ao Pai Natal, pelas melhores razões, como em relação a outras coisas, pelas piores.
Alguns de nós continuamos a acreditar no Pai Natal, pelas melhores razões e deixámos de acreditar nas outras, também pela melhor razão. Que tem a ver com a nossa saúde mental.
Por isso, no dia em que começamos a descelebrar o primeiro de Dezembro, eu celebro fazendo o presépio. No dia em que somos informados que Portugal se encontra no lugar 32 da corrupção a nível mundial, o que representa mais ou menos 6,1 numa escala de 0 a 10 e a conceituada autora do estudo afirma que a corrupção está à frente entre as causas para o estado económico dos países. O que já sabíamos, sem termos feito estudos. Já está tudo à vista. Só os tribunais não veem. Talvez seja por causa da venda que teimam em não retirar dos olhos da Justiça. Dá-lhe(s) jeito. O pior cego é o que não quer ver.
Não nos fazia mal celebrar o primeiro de dezembro. Celebrar é um sinal de autoestima a nível pessoal e a nível dos países. Se já estamos quase no lixo, sem celebrações onde iremos parar? É mais ou menos irrelevante o motivo pelo qual celebramos, o que importa é que celebremos. Por essa razão, nunca vi neste primeiro de dezembro um sentido anti-espanhol, mas vontade de celebrar. Com espanhóis. Não é muito bom para ninguém e também não para os países, manterem o controlo e hegemonia sobre outros. Por isso, nesse pré-defunto feriado até cabia a celebração da independência dos espanhóis, nossos irmãos, para o melhor e para o pior, relativamente ao seu desejo de domínio sobre o outro, que nesta caso fomos nós. Às vezes fomos nós o nós e o outro foi o outro. Faz-me sentido.
Deixo aqui uma foto de Mourad Garrach, um fotógrafo muçulmano, representando uma mulher. Que tanto poderia ser uma carpideira despedindo-se do último primeiro de dezembro, como uma Fatma, virgem ou deusa muçulmana. Ou apenas uma mulher. À escolha de cada um. Eu admiro qualquer uma.
Também podia pôr aqui uma foto da minha gata mais pequena, que se chama Fátima, porque nasceu viva e cheia de vitalidade de uma ninhada de gatos mortos, na véspera do 13 de maio. Uma espécie de último primeiro de dezembro ao contrário.
É claro que a grande questão disto tudo é que estão a atirar-nos poeira fina para os olhos, querendo inutilmente fazer-nos crer que com menos 2 ou 4 feriados vamos sair da crise. Esta sim, é a grande anedota do ano. Entre outras. A política, a nobre política, transformaram-na numa anedota. E isso é pena. Mas vai passar. "Enlacemos as mãos"* e olhemos o curso do rio.
* Ricardo Reis
Podemos fingir que acreditamos. Como quando éramos pequeninos. Sempre fingimos que acreditávamos, mesmo quando os adultos nos mentiam, quer em relação ao Pai Natal, pelas melhores razões, como em relação a outras coisas, pelas piores.
Alguns de nós continuamos a acreditar no Pai Natal, pelas melhores razões e deixámos de acreditar nas outras, também pela melhor razão. Que tem a ver com a nossa saúde mental.
Por isso, no dia em que começamos a descelebrar o primeiro de Dezembro, eu celebro fazendo o presépio. No dia em que somos informados que Portugal se encontra no lugar 32 da corrupção a nível mundial, o que representa mais ou menos 6,1 numa escala de 0 a 10 e a conceituada autora do estudo afirma que a corrupção está à frente entre as causas para o estado económico dos países. O que já sabíamos, sem termos feito estudos. Já está tudo à vista. Só os tribunais não veem. Talvez seja por causa da venda que teimam em não retirar dos olhos da Justiça. Dá-lhe(s) jeito. O pior cego é o que não quer ver.
Não nos fazia mal celebrar o primeiro de dezembro. Celebrar é um sinal de autoestima a nível pessoal e a nível dos países. Se já estamos quase no lixo, sem celebrações onde iremos parar? É mais ou menos irrelevante o motivo pelo qual celebramos, o que importa é que celebremos. Por essa razão, nunca vi neste primeiro de dezembro um sentido anti-espanhol, mas vontade de celebrar. Com espanhóis. Não é muito bom para ninguém e também não para os países, manterem o controlo e hegemonia sobre outros. Por isso, nesse pré-defunto feriado até cabia a celebração da independência dos espanhóis, nossos irmãos, para o melhor e para o pior, relativamente ao seu desejo de domínio sobre o outro, que nesta caso fomos nós. Às vezes fomos nós o nós e o outro foi o outro. Faz-me sentido.
Deixo aqui uma foto de Mourad Garrach, um fotógrafo muçulmano, representando uma mulher. Que tanto poderia ser uma carpideira despedindo-se do último primeiro de dezembro, como uma Fatma, virgem ou deusa muçulmana. Ou apenas uma mulher. À escolha de cada um. Eu admiro qualquer uma.
Também podia pôr aqui uma foto da minha gata mais pequena, que se chama Fátima, porque nasceu viva e cheia de vitalidade de uma ninhada de gatos mortos, na véspera do 13 de maio. Uma espécie de último primeiro de dezembro ao contrário.
É claro que a grande questão disto tudo é que estão a atirar-nos poeira fina para os olhos, querendo inutilmente fazer-nos crer que com menos 2 ou 4 feriados vamos sair da crise. Esta sim, é a grande anedota do ano. Entre outras. A política, a nobre política, transformaram-na numa anedota. E isso é pena. Mas vai passar. "Enlacemos as mãos"* e olhemos o curso do rio.
* Ricardo Reis
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primeiro de Dezembro
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
A FACE OCULTA DO VENTO, de Ana Viana
Dia 7 de Dezembro às 18.30 na sala 7 do Instituto de Educação/Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa (à Alameda da Universidade).
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sexta-feira, 25 de novembro de 2011
A luz e a lua
Diz-se dela que não tem luz. Se assim fosse, como poderia esconder a luz que não tem?
Hoje é dia de lua nova. É quando se oculta que tem mais força. A força que vem da suavidade. Como a água, que lhe é irmã. Gémeas de ovos diferentes, mas similares.
Alguém já ouviu o sol acusar a lua de não ter luz própria? Ele sabe que ela é a outra face da luz, o seu espelho. É por poder olhar-se nela que ele existe.
Hoje é dia de lua nova, essa que resplandece no mais profundo escuro.
Na verdade, são trinta, as fases a lua, a grande mestra da mudança. A maior lição da única verdade do mundo, que é a impermanência.
Por isso, não pode brilhar fixamente, como o sol, ou não aprenderíamos.
Também a lua nova não é para todos. A face iluminada mostra-se agora ao outro hemisfério. Hoje, nós temos o privilégio do escuro, essa outra forma de silêncio, essa outra experiência de centro.
Hoje é dia de lua nova. É quando se oculta que tem mais força. A força que vem da suavidade. Como a água, que lhe é irmã. Gémeas de ovos diferentes, mas similares.
Alguém já ouviu o sol acusar a lua de não ter luz própria? Ele sabe que ela é a outra face da luz, o seu espelho. É por poder olhar-se nela que ele existe.
Hoje é dia de lua nova, essa que resplandece no mais profundo escuro.
Na verdade, são trinta, as fases a lua, a grande mestra da mudança. A maior lição da única verdade do mundo, que é a impermanência.
Por isso, não pode brilhar fixamente, como o sol, ou não aprenderíamos.
Também a lua nova não é para todos. A face iluminada mostra-se agora ao outro hemisfério. Hoje, nós temos o privilégio do escuro, essa outra forma de silêncio, essa outra experiência de centro.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
CAFÉ DOS DIREITOS com Ana Paula Barros
CICLO DO CAFÉ - Café dos Direitos - Delta Q - deQafeinatus
|
Almedina Atrium Saldanha
23 de Novembro 2011, às 19h 00m |
CICLO DO CAFÉ - Café dos Direitos - Delta Q - deQafeinatus
Como se defender de práticas comerciais enganosas? |
Advogada, autora do guia «Consumo». Essencial à vida em sociedade, o Direito define direitos e deveres entre as pessoas e visa a resolução de conflitos de interesse. Onde está a sociedade, ali está o direito. Mas como pode um leigo ter pleno conhecimento dos seus direitos e deveres de forma a viver melhor com os outros e a tomar as melhores decisões relativamente à sua vida? As respostas passam pelo CAFÉ DOS DIREITOS, espaço de informação jurídica relevante para o cidadão comum, exposta por especialistas de forma actual, rigorosa e acessível, com coordenação de Edgar Valles, advogado, formador do Conselho Distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados na área de Processo Civil, responsável do consultório jurídico do Público Online e autor de vasta bibliografia na área do Direito. Do trabalho à família, ao consumo, à segurança social, ao arrendamento ou aos impostos... Todas as suas perguntas têm resposta. No CAFÉ DOS DIREITOS, ciclo de formação livre para defesa dos direitos do cidadão. Organização: Almedina Coordenador: Edgar Valles |
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