A minha experiência da obra de Pedro Morais passa pelas obras Locus Solus III – Muro Oco de Cal Pintada e Água Corrente e Dokusan III – Lâmina e Anamorfose em Parede Caiada, Museu de Serralves, Porto (2006), Focus Fatus, Avenida 211, Lisboa e (2008) e MU – Lua em Chão de Terra Batida, CAM – Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa (2009).
Em todos, a contenção e o rigor, mas também os sentidos, que não só o do olhar.
Recordo-me de ter escrito sobre todos estes trabalhos, mas sobre algo me falta ainda escrever: o excelente trabalho que desenvolveu ao longo de anos como curador da Galeria Lino António na Escola Secundária Artística António Arroio onde também foi professor e antes fora aluno.
Antes disso, falarei, se souber, de uma obra atualmente exposta na Galeria Chiado 8, que tem por título Ma-A Dança dos Pirilampos.
Pirilampos é uma coisa de que gosto e de dança também.
Aí encontrei o improvável: pirilampos em pleno Chiado depois de ter percorrido um estrito e estreito e à primeira vista claustrofóbico corredor de madeira e a cheirar a ela, tanto, que se não conhecesse a autenticidade do trabalho de Pedro Morais suspeitaria da presença de um desses libertadores de aromas que agora se usam para atrair as pessoas. Mas não. Trata-se de madeira mesmo madeira cheirando deliciosamente a madeira e acompanhando o meu percurso de um lado ao outro do túnel, por baixo, nos lados e por cima. Acho; recordo agora que não olhei para cima.
Eu encetara a viagem com a recomendação, feita pela funcionária, de que, chegada ao outro lado, não devia nunca por nunca abandonar o estrado de madeira. Assim, aí me mantive, obediente, aparentemente chegada ao fim e sem saber o que fazer mais. Se voltar para trás pelo mesmo corredor, se pedir ajuda. Mas não. Porque em frente, uma fresta mostrou-me, escassamente, mas mostrou, a dança que ali me levara: a dos pirilampos. Geométrica dança, intermitente, como é a luminosa dança dos piriplampos. Espreitar pela fresta e querer agarrar com o olhar a luz esquiva, equivale à tentativa de olhar algumas esquivas memórias de criança. Não sei se é essa a metáfora, provavelmente não é, mas foi-o para mim, naquele momento.
A propósito desta exposição escrevi, num diário literário que faço com e para os meus alunos:
"...transportou-me até à minha infância através de um inseto e do seu nome,
palavra que na altura adorava e hoje também. A palavra e o inseto.
Diz o dicionário que o pirilampo é um besouro de uma família especial, pois é capaz de produzir luminescência. São bioluminescentes e o seu nome deriva do grego pyris que significa fogo, mais lampis, que significa luz.
São uma espécie de dois em um, ou então uma
redundância, dependendo do nosso ponto de vista. Se tivermos em conta
que fogo é luz, sendo que o contrário já não é obrigatoriamente verdade.
Mas a "viagem" não terminou aqui, porque me
transportou até ao conto "O Lampejo" de Italo Calvino que li aos meus
alunos no início do ano e onde se conta a história de um homem que um
dia, subitamente, viu toda a realidade sem máscara, com o absurdo que
normalmente esconde, mas quando quis comunicá-lo às pessoas à sua
volta, o "lampejo" ou o olhar iluminado desapareceu e apenas restou a
nostalgia de um momento de lucidez e o desejo de que um dia voltasse.
Este "acender" do olhar especial foi tão
fugaz como o é o brilho dos pirilampos que na minha infância gostava de
observar e que atualmente cada vez menos encontro. Recordo-me de os ter
visto há cerca de três anos, no Gerês, mas vão sendo raros os
pirilampos nos meus dias. Felizmente, o mesmo não me acontece com os
lampejos, cada vez mais frequentes. Graças a São Pirilampo."
Assim terminei a página do diário, mas não este texto. Porque depois de os meus olhos se concentrarem na fresta em busca da luz e de já não ser suportável para eles o que a alma pedia: olhar mais, saí por onde tinha de sair e disse à funcionária que ia repetir a experiência.
Assim, numa tarde solar entre o Natal e o Ano Novo percorri uma segunda vez o estreito corredor e espreitei também uma vez mais o meu iluminado passado. E fiquei grata.

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